A Sagração da Primavera
By: Olga RorizFrom the repertoire of Companhia Olga Roriz







A minha Sagração
Apenas o facto de escrever ou deixar escapar-me da boca a conjugação destas duas simples palavras «a minha Sagração», me transtorna a mente, o coração, a flor da pele.
O tempo parece não ter passado desde que, ainda jovem, interpretei o papel da eleita do coreógrafo Joseph Roussillo no Ballet Gulbenkian.
O tempo parece não ter passado desde a primeira vez que vi, num minúsculo televisor, a versão de Pina e ter decidido nunca coreografar esta peça.
O tempo parece não ter passado desde a polémica estreia de Nijinsky/Stravinsky.
Mas o tempo passou e a obra perdura no nosso imaginário cultural.
O fascínio e respeito pela partitura foram determinantes para a minha interpretação, construção dramatúrgica e coreográfica da peça.
A fidelidade ao guião de Stravinsky foi, desde o início, o único caminho com o qual me propus confrontar.
No entanto, dois aspectos se distanciaram do conceito original. Visões personalizadas que imprimem à história uma lógica mais possível à minha compreensão, mais aprazível à minha manipulação.
Em 1º lugar concedi ao personagem do Sábio um protagonismo invulgar, sendo ele que inicia a peça. Ainda em silêncio e durante todo o Prelúdio habita o espaço solitário e vazio traçando nos seus gestos um percurso de premunição, antecipação e preparação do terreno para o ritual. A 2º opção, que se distancia drasticamente do conceito original, reside no facto de o personagem da Eleita não ser tratada como uma vítima no sentido dramático da questão. A minha Eleita sente-se uma privilegiada e quer dançar até sucumbir. Em nenhum momento se sente obrigada ou castigada nem o medo a invade. Ela expõe a sua força e energia vitais lutando cegamente contra o cansaço.
Olga Roriz
10 de Maio de 2010





